Pesquisa da Thomson detecta mercado empoçado de papéis e grandes bancos da Europa e EUA sinucados
(Antônio Machado)
Os mercados financeiros internacionais, sobretudo nos EUA, onde tudo começou, tiveram uma semana calma, a primeira desde meados de julho, quando ficou visível que a bolha da especulação imobiliária batera no teto, precipitando a fuga dos capitais das hipotecas de alto risco contraídas por cidadãos americanos com ficha cadastral suspeita, transformadas em títulos e distribuídas a investidores em todo canto. Mais nos EUA e Europa. Aqui, nada, ao que se sabe.
Tranqüilo, sim, como o jacaré sob o sol à beira de um rio: finge que dorme, mas está pronto para o bote ou para se recolher à água. Depende do risco e isso ninguém ainda sabe. Nem o Federal Reserve, nem o Banco Central Europeu. Os dois voltaram a injetar bilhões de dólares e euros no mercado, estes dias, para conter ondas súbitas de iliquidez. Sinal de que os jacarés continuam indóceis.
Saíram a campo ora por escassez de recursos em um ou mais bancos, ora, acredita-se, por manobras especulativas apenas para testar se os bancos centrais líderes da economia global estão mesmo atentos e dispostos a confirmar o anunciado no início da crise: que farão tudo para impedir que a desconfiança desemboque no
credit crunch, a parada do crédito, o mais grave que pode acontecer à economia.
Tais intervenções são sob medida: nem pouco, de modo a não perder o controle da situação, nem muito, permitindo à banca safar-se da irresponsabilidade em que se meteu, financiando outros bancos, os fundos de hedge, sociedades de
private equity, empresas e pessoas sem condições de retornar nem sequer o principal emprestado.
Tudo o que o sistema mais aspira é espetar a conta desta farra no lombo dos contribuintes americanos e europeus, como já ocorreu noutros tempos. Desta vez, a vigilância sobre os BCs está intensa.
A verdade é que ninguém é inocente. As hipotecas de devedores sem renda para quitá-las, por exemplo, eram conhecidas de todos, tanto que levavam a alcunha de subprime, o oposto dos papéis prime, com nota AAA das agências de rating, significando ausência de risco.
Já era a expressão subprime uma plástica do que nos anos 80, dos yuppies e de outra febre especulativa com papéis de renda fixa e ações nas bolsas, levava o nome de
junk bond - literalmente, papel do lixo. Esta crise passou sem deixar saudades e pôs muito bacana dos EUA na cadeia. A crise atual ainda busca o seu desfecho.
O logro dos bancos
O crime quase perfeito é que os papéis subprime, e não apenas de hipotecas, também recebíveis de cartões de créditos e promissórias de empresas, foram em muitos casos empacotados com títulos classe AAA, misturando dinheiro bom com ruim. Seria para lograr incauto?
Tais dívidas securitizadas foram vendidas a fundos diversos, que depois saíram derivando-os em novos ativos financeiros, como rosca sem fim, com certificado das agências de risco e olhar complacente dos bancos centrais. Qual a soma disso? Trilhões de dólares? Quem os tem em carteira? Quanto eles valem hoje?
Qual a perda, quando o preço destes ativos for reavaliado? Alguns viraram pó. Qual regra para marcar a mercado? Faltam todas estas respostas. E, sem elas, a crise seguirá batendo ponto todos os dias nos mercados.
Mercado empoçado
O prejuízo já é real para a economia. Com tantas indefinições, há centenas de operações de empresas não-financeiras em todo mundo no
bottom line dos bancos, algumas de grupos brasileiros, à espera da volta dos capitais ariscos e dos fundos estáveis que foram esperar a poeira assentar no porto seguro dos títulos do Tesouro dos EUA.
Com a liquidez empoçada nos Tbills e notes, o tédio só não toma conta dos mercados porque se aguarda alguma providência dos bancos centrais e ministros de finanças dos países mais ricos. Sem pôr para rodar as engrenagens do crédito, a economia mundial pára. E quanto mais tempo ficar parada mais a desaceleração toma forma de recessão.
Os mais sinucados
Pesquisa da Thomson Financial revela que de maio a julho havia US$ 250 bilhões de novas emissões para serem desovadas no mercado. Essa massa de papéis subitamente sem tomador colidiu com o que os bancos aprontavam para trazer ao mercado. O JP Morgan estoca US$ 65 bilhões referentes a 111 operações de empréstimos sob a forma de novos títulos.
O Deutsche (US$ 32 bilhões) e o Citi (US$ 26 bilhões) fecham o trio dos bancos mais sinucados no momento. Essa é a seqüela mais perigosa da crise, não as hipotecas de falidos.
No fundo, a expectativa é que o pior não dê as caras. O pessoal comum desconfia das relações íntimas entre mercados financeiros, bancos centrais e Tesouros nacionais. A relação é de dependência mútua, sem a qual não há política monetária, confiança, mercado de dívidas, quem empreste ou invista a longo prazo.
Com transparência e observância às regras do sistema, não se trata de favorecimento, mas de funcionamento pleno da lógica do capitalismo. Às vezes há excessos, como agora, gerando crises. Sai-se delas partilhando as perdas. O que está difícil é reconhecer o tamanho dos prejuízos.
Prova de maturidade dos mercados é que emissões menores, de até US$ 500 milhões, nas quais há menor risco, se mostram indiferentes ao colapso do crédito, que fechou para os “mega deals”, acima de US$ 5 bilhões. Aquelas se mantêm nos últimos quatro meses na faixa de US$ 7 bilhões. Estes vieram de US$ 9 bilhões em agosto de 2006 para zero.
Maior seletividade dos negócios financeiros, tendência que parece chegou para ficar, e emissões estocadas ou frustradas são indícios de que a digestão da crise pela banca será lenta e sofrida.